Não faça cara feia #1

Ne faites pas la moue

Um dueto cômico: dança e filosofia

Este primeiro episódio, bastante subjetivo, funciona como uma abertura. Apoia-se em filósofos “emblemáticos” no percurso da artista e pesquisadora Geisha Fontaine. Assim surgem Parmênides, Heráclito, Demócrito, Luciano de Samósata, Giordano Bruno, Spinoza, Nietzsche, Lévinas, Deleuze, Rosset… Eles lançam pistas a serem dançadas. Isso cria ligações, por vezes cômicas, entre proposições filosóficas e apropriações coreográficas. São assim alegremente esboçadas correspondências e desvios entre o que as palavras lançam e o que a dança faz delas.

Por exemplo: o abandono da linha reta, preconizado por Demócrito, convida a um trabalho sobre o espaço; no entanto, evitar a linha reta num palco não é tão simples. Ou ainda: “o sol tem o tamanho de um pé humano”, segundo Heráclito — concretizar isso num palco abre estranhas ressonâncias a cada passo. Ou ainda: a matilha, descrita de forma complexa por Deleuze e Guattari. Aliás, é tão complexa que essa matilha retornará regularmente na série.

Serão também evocadas, o que é importante para um episódio inicial, a filosofia censurada e a dança censurada. Sim, por vezes é arriscado filosofar, dançar…

Em resumo, fala-se dos pré-socráticos, do eterno retorno, da pirueta, do livro Mil Platôs, de como fazer o idiota, da ilusão, da dança como um excelente veículo do “conhece-te a ti mesmo”, dos pensadores censurados, dos dançarinos censurados, dos céticos gregos. Também do rosto. E da velocidade do pensamento.

E do eterno retorno, grande questão que atravessa tanto a dança como a filosofia:

“Se, em tudo o que quiseres fazer, começas por te perguntar: tenho certeza de querer fazê-lo um número infinito de vezes, isso será para ti o centro de gravidade mais sólido.” (Nietzsche)

Em resumo: dançar, e voltar a dançar, e voltar a dançar, e voltar a dançar. E voltar a dançar ainda uma vez. Alta filosofia. Bela dança.

Interpretação: Geisha Fontaine
Música: Farnaz Modarresifar (santur)

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